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Ensaio teórico · 2026

Quando o Outro se Torna Ameaça: ruptura dos vínculos, transformação da comunicação, polarização e ansiedade persistente após a pandemia de COVID-19

Proposta do Modelo da Ameaça Social Integrada (MASI)

Francisco Cesar de Sousa · Pedagogo e Neuropsicopedagogo. Pesquisador independente, Americana, SP, Brasil.

15 minutos de leitura · 3065 palavras

Resumo

Resumo

A pandemia de COVID-19 foi acompanhada de um aumento estimado de 25,6% na prevalência global de transtornos de ansiedade em 2020, mas estudos de coorte posteriores indicam que a variação média foi pequena e que as trajetórias individuais foram muito heterogêneas. Este artigo teórico propõe o Modelo da Ameaça Social Integrada (MASI) para investigar por que parte das pessoas pode manter ansiedade depois da redução da ameaça epidemiológica. O modelo articula quatro dimensões — ameaça biológica, ruptura relacional, transformação informacional da comunicação e ameaça identitária e de pertencimento em contexto de polarização afetiva — e sustenta que sua sobreposição pode aumentar vigilância e incerteza ao mesmo tempo em que reduz participação social, reciprocidade e regulação social do estresse. Distinguem-se isolamento físico, privação relacional e perda de participação social significativa, e introduz-se o constructo provisório de ansiedade de pertencimento. Com base em revisão narrativa, separam-se evidências estabelecidas, associações, mecanismos plausíveis e hipóteses. São formuladas cinco hipóteses testáveis e um delineamento longitudinal de painel para o contexto brasileiro. O artigo não afirma relações causais; oferece uma estrutura falseável para pesquisas futuras.

Palavras-chave: ansiedade; COVID-19; pertencimento social; polarização afetiva; solidão; infodemia.

Abstract

The COVID-19 pandemic was accompanied by an estimated 25.6% global increase in the prevalence of anxiety disorders in 2020, yet later cohort evidence suggests small average changes and markedly heterogeneous individual trajectories. This theoretical article proposes the Integrated Social Threat Model (ISTM) to examine why some people may remain anxious after the epidemiological threat has receded. The model integrates four dimensions — biological threat, relational disruption, informational transformation of communication, and identity/belonging threat under affective polarization — and hypothesizes that their overlap may heighten vigilance and uncertainty while reducing social participation, reciprocity, and social regulation of stress. We distinguish physical isolation, relational deprivation, and loss of meaningful social participation, and introduce the provisional construct of belonging anxiety. Drawing on a narrative review, we separate established evidence, associations, plausible mechanisms, and hypotheses. Five testable hypotheses and a longitudinal panel design for the Brazilian context are presented. The article makes no causal claims; it offers a falsifiable framework for future research.

Keywords: anxiety; COVID-19; social belonging; affective polarization; loneliness; infodemic.

1 INTRODUÇÃO

A COVID-19 impôs uma resposta social aparentemente paradoxal: para proteger o indivíduo contra uma ameaça biológica, foi necessário reduzir temporariamente as formas de interação pelas quais seres humanos obtêm apoio, pertencimento e regulação do estresse. O outro, tradicionalmente fonte de proteção, passou a ser também vetor potencial de contágio.

O impacto psicológico inicial está bem documentado. Santomauro et al. (2021) estimaram, por modelagem, aumento de 25,6% na prevalência global de transtornos de ansiedade em 2020, o que corresponderia a cerca de 76,2 milhões de casos adicionais, com associação entre o aumento e a redução da mobilidade e a incidência de SARS-CoV-2. A Organização Mundial da Saúde (2022) sintetizou como fatores associados ao sofrimento psicológico o isolamento, as restrições ao trabalho e ao contato com pessoas próximas, o medo de infecção e morte, o luto e as dificuldades financeiras.

Contudo, o quadro posterior é menos linear. Uma meta-análise de 134 coortes com medidas pré-pandêmicas não encontrou mudança média nos sintomas de ansiedade da população geral (diferença média padronizada de 0,05; IC 95%: −0,04 a 0,13), com piora mínima dos sintomas depressivos (SUN et al., 2023), e revisões de estudos longitudinais apontam declínio médio da ansiedade após o pico inicial (CÉNAT et al., 2022). Estudos de trajetória mostram, além disso, que a maioria das pessoas manteve baixa ansiedade, enquanto subgrupos apresentaram ansiedade crônica, recuperação ou início tardio (SHILTON et al., 2023). Essa heterogeneidade desloca a pergunta de pesquisa: em vez de indagar se a pandemia aumentou a ansiedade em média, interessa saber para quem, por quais mecanismos e em que condições a ansiedade persistiu depois que a ameaça epidemiológica diminuiu.

Este artigo propõe que a experiência pandêmica seja analisada como uma crise multidimensional de segurança social, na qual ameaças biológicas, relacionais, informacionais e identitárias interagiram. O ponto de partida é uma observação do autor sobre a transformação percebida nos modos de comunicação e de participação coletiva — da conversa à colaboração em projetos e à construção de cultura. Essa observação é tratada aqui apenas como motivação: ela gera uma pergunta, a literatura sustenta hipóteses, o modelo produz predições e os dados, em estudos futuros, as testam.

A contribuição pretendida é conceitual. Cada componente do modelo possui literatura própria; o possível valor original reside (i) na distinção entre isolamento físico, privação relacional e perda de participação social significativa; (ii) na integração das camadas informacional e identitária a uma teoria de regulação social do estresse; (iii) na proposição do constructo de ansiedade de pertencimento; e (iv) na formulação de um desenho que trate esses elementos como um sistema dinâmico testável no Brasil.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E REVISÃO NARRATIVA

Esta seção é uma revisão narrativa orientada pela relevância teórica das fontes, e não uma revisão sistemática. Para submissão a periódicos que o exijam, recomenda-se complementá-la com busca sistemática documentada (por exemplo, protocolo PRISMA ou scoping review). Ao longo do texto distinguem-se quatro níveis: evidência estabelecida, associação empírica, mecanismo plausível e hipótese do artigo.

2.1 Incerteza, antecipação e ansiedade

A ansiedade está intimamente ligada à antecipação de ameaças futuras incertas. Na revisão integrativa de Grupe e Nitschke (2013), a incerteza sobre a ocorrência, o momento e a magnitude de uma ameaça ocupa posição central nos processos neurobiológicos e psicológicos que sustentam a experiência ansiosa. Durante a pandemia, a incerteza era simultaneamente sanitária, econômica e relacional. Esse é um mecanismo plausível de alcance geral; ele não explica, por si, a persistência após a fase aguda.

2.2 Regulação social do estresse

A Teoria da Linha de Base Social propõe que o funcionamento humano pressupõe um contexto social em que outras pessoas reduzem os custos percebidos de risco e esforço (COAN; SBARRA, 2015). A literatura sobre social buffering indica que a presença e o suporte de outros podem modular respostas de estresse e ansiedade (KIKUSUI; WINSLOW; MORI, 2006). A Teoria da Segurança Social, por sua vez, formula que a experiência de ameaça social e a ausência de sinais de segurança social mantêm sistemas biológicos de defesa ativados (SLAVICH, 2020), e a necessidade de pertencer é tratada como motivação humana fundamental (BAUMEISTER; LEARY, 1995). Essas abordagens oferecem a base do MASI e delimitam seu ineditismo: o modelo não propõe a regulação social como novidade, mas busca integrá-la às camadas informacional e identitária do período pós-pandêmico.

Cabe cautela na formulação. Não se afirma que “o cérebro precisa se comunicar para não ficar ansioso”; afirma-se que relações sociais podem participar da regulação da ameaça, do esforço e do estresse.

2.3 Solidão, isolamento físico e participação social

Distinguem-se aqui três fenômenos frequentemente tratados como equivalentes: isolamento físico (redução objetiva de contatos presenciais); privação relacional (discrepância percebida entre os vínculos desejados e os disponíveis, equivalente ao que a literatura chama de solidão); e perda de participação social significativa (redução de atividades coletivas de coordenação, cooperação e produção compartilhada). Uma pessoa pode estar digitalmente conectada e, ainda assim, experimentar perda de participação e de reciprocidade.

Na pandemia, uma meta-análise de 73 estudos encontrou correlação agrupada de r = 0,40 entre solidão e sintomas de ansiedade, enquanto a correlação com suporte social foi menor (r = 0,19) (GABARRELL-PASCUET et al., 2023). Antes da pandemia, Hawkley e Cacioppo (2010) já haviam revisado evidências de que a solidão percebida se associa a hipervigilância para ameaças sociais e a alterações fisiológicas, e Holt-Lunstad, Smith e Layton (2010) mostraram, em 148 estudos, associação entre relações sociais e sobrevivência. Na perspectiva do MASI, o que falta à literatura é separar solidão de participação social significativa — distinção apresentada como proposição conceitual (Quadro 1), e não como achado estabelecido.

Quadro 1 – Distinção conceitual proposta entre comunicação e participação social significativa

ComunicaçãoParticipação social significativa
ConversarConstruir
ResponderColaborar
AssistirProduzir
ReagirTransformar
Consumir conteúdoCriar cultura
Estar conectadoPertencer

Fonte: proposição conceitual do autor, a ser operacionalizada e validada.

2.3.1 Digitalização da interação

As plataformas digitais foram essenciais para manter trabalho e comunicação. A questão científica é se a comunicação digital compensou integralmente a perda da interação presencial ou apenas parte dela. Uma meta-análise de 14 estudos transversais com adultos jovens encontrou associação entre maior tempo de uso de redes sociais durante o isolamento e sintomas de ansiedade (OR agrupado = 1,55; IC 95%: 1,30–1,85; I² = 26,8%) (LEE et al., 2022). Trata-se de associação transversal, baseada em tempo de uso, que não permite inferir causalidade nem distinguir uso ativo de passivo. Gao et al. (2020) também relataram associação entre exposição a redes sociais e problemas de saúde mental no início da pandemia. A formulação do MASI é, portanto, que a transformação da ecologia comunicacional pode moderar a experiência de estresse, pertencimento e ameaça — e não que redes sociais causam ansiedade.

2.4 Infodemia

Em contexto de isolamento, a busca por informação pode funcionar como tentativa de recuperar controle. Se o ambiente informacional é contraditório, alarmista ou desinformativo, a busca pode ampliar a incerteza e gerar novas buscas. A revisão sistemática de Rocha et al. (2021) examinou o impacto de notícias falsas sobre a saúde durante a pandemia, em pesquisa realizada até maio de 2021. O encadeamento ameaça → busca de informação → excesso informacional → incerteza → nova busca é aqui denominado “paradoxo da informação ansiosa” e permanece uma hipótese: a ligação específica entre desinformação e ansiedade persistente não está estabelecida.

2.5 Polarização afetiva e pertencimento

Antes de discutir qualquer efeito psicológico, é necessário demonstrar que a polarização existiu. Brum et al. (2022) desenvolveram método computacional para analisar dados do Twitter e quantificar a polarização política do público brasileiro em mensagens sobre a COVID-19, com índice de polarização entre 0,59 e 0,86 em escala de 0 a 1, e analisaram o papel de contas automatizadas. Petherick et al. (2026) acompanharam, em cinco ondas de levantamento entre abril de 2022 e fevereiro de 2023 (N aproximado de 2.000 a 3.000), a polarização afetiva em torno das eleições brasileiras; a polarização entre lulistas e bolsonaristas foi particularmente intensa antes da campanha, permaneceu estável durante as eleições e depois diminuiu de forma aproximadamente simétrica, e a correção de percepções equivocadas sobre os posicionamentos do outro grupo reduziu a polarização afetiva em até 6,66 pontos percentuais no termômetro de simpatia. Em termos conceituais, a polarização afetiva — antipatia e desconfiança em relação a quem pertence ao outro grupo político — vem sendo estudada como fenômeno distinto da divergência ideológica (IYENGAR et al., 2019).

Ressalte-se o limite: esses estudos documentam polarização, não ansiedade. A hipótese de que a polarização possa funcionar como ameaça relacional e identitária — isto é, de que a divergência de opinião seja percebida não só como desacordo sobre políticas, mas como risco ao vínculo — é um mecanismo plausível sem teste direto. Dela deriva o constructo provisório de ansiedade de pertencimento: medo antecipatório de perda de aceitação, vínculo ou pertencimento decorrente da percepção de divergência em relação às normas ou posições de um grupo social relevante. A pergunta subjacente deixa de ser “estou certo ou errado?” e passa a ser “continuarei pertencendo?”. Não se trata de diagnóstico clínico, e sim de constructo teórico a ser operacionalizado.

2.6 Trajetórias individuais e correlatos neurobiológicos

Fancourt, Steptoe e Bu (2021) acompanharam 36.520 adultos na Inglaterra durante as primeiras semanas de confinamento e observaram que os sintomas de ansiedade e depressão diminuíram ao longo do período, indicando adaptação como trajetória possível. Em uma amostra de 1.362 participantes (Estados Unidos e Israel) acompanhados entre abril e setembro de 2020, um modelo de quatro classes identificou trajetórias resiliente (75,1%), de ansiedade crônica (11,6%), de recuperação (7,5%) e de ansiedade tardia (5,8%); os estressores relacionados à COVID-19 não diferiram entre as trajetórias, ao passo que regulação emocional e baixo nível de relações conflituosas distinguiram a trajetória resiliente (SHILTON et al., 2023). Esse último achado é compatível com o papel da qualidade relacional no MASI, embora a amostra, obtida por plataforma online, tenha predominância de mulheres, brancos e pessoas com alta escolaridade, e cubra apenas a fase inicial.

No plano neurobiológico, o modelo admite três sistemas funcionais — detecção e antecipação de ameaça (por exemplo, amígdala e ínsula), regulação (córtex pré-frontal) e recompensa/processamento social —, sem pretensão reducionista. Estudos longitudinais com neuroimagem pré-pandêmica começaram a relacionar circuitos de ameaça e recompensa a estresse percebido e ansiedade posteriores em adolescentes (BORCHERS et al., 2024). Essa evidência apoia a plausibilidade biológica de vulnerabilidades prévias, mas não testa o MASI.

2.7 Síntese da evidência por componente do modelo

Quadro 2 – Níveis de evidência por componente do MASI

ComponenteEvidência disponívelLimites
Incerteza e antecipação de ameaça → ansiedadeRevisão integrativa neurobiológica e psicológica (GRUPE; NITSCHKE, 2013).Mecanismo geral; não específico da pandemia nem da persistência.
Solidão e suporte social → ansiedade na pandemiaMeta-análise de 73 estudos: r = 0,40 (solidão) e r = 0,19 (suporte) (GABARRELL-PASCUET et al., 2023).Predomínio de associações que não permitem causalidade; solidão não equivale a participação.
Regulação social do estresseTeoria e evidência de social buffering e Linha de Base Social (KIKUSUI et al., 2006; COAN; SBARRA, 2015).Extensão à comunicação digital não testada diretamente.
Tempo de redes sociais → ansiedadeOR = 1,55 em 14 estudos transversais com adultos jovens (LEE et al., 2022).Transversal; bidirecionalidade; não distingue uso ativo e passivo.
Infodemia → sofrimentoRevisão sistemática sobre fake news e saúde (ROCHA et al., 2021).Heterogeneidade; vínculo com ansiedade persistente não estabelecido.
Polarização afetiva no BrasilBrum et al. (2022); Petherick et al. (2026).Documentam polarização, não ansiedade; ligação com ansiedade é hipótese.
Trajetórias heterogêneasFancourt et al. (2021); Shilton et al. (2023); Sun et al. (2023).Maioria dos estudos cobre 2020–2021; pouca informação pós-fase aguda.
Circuitos neurais pré-pandêmicosBorchers et al. (2024).Amostra adolescente; não testa o MASI.
Participação significativa, ansiedade de pertencimento e ciclo de evitaçãoSem evidência direta; proposições do artigo.Exigem operacionalização, validação psicométrica e teste longitudinal.

Fonte: elaboração do autor.

3 O MODELO DA AMEAÇA SOCIAL INTEGRADA (MASI)

3.1 Pressupostos

O MASI parte de cinco proposições, todas formuladas como hipóteses de trabalho: (P1) a pandemia combinou quatro dimensões de ameaça — biológica, relacional, informacional e identitária; (P2) a regulação social do estresse depende não apenas de comunicação, mas de participação social significativa; (P3) a migração da interação para ambientes digitais, quando desacompanhada de participação, pode compensar apenas parte das funções de regulação social; (P4) ambientes informacionais conflitantes e a polarização afetiva podem converter divergência em ameaça ao pertencimento; (P5) a ansiedade resultante pode induzir evitação e retração, reduzindo oportunidades de regulação social e configurando um ciclo de retroalimentação.

3.2 Estrutura do modelo

Figura 1 – Modelo da Ameaça Social Integrada (MASI). Cores indicam o nível de evidência de cada relação (verde: associação documentada; amarelo: evidência parcial ou heterogênea; roxo: hipótese ou constructo proposto). Fonte: elaboração do autor.

3.3 Relação com teorias existentes e contribuição possível

O MASI dialoga diretamente com a Teoria da Segurança Social (SLAVICH, 2020), a Linha de Base Social (COAN; SBARRA, 2015) e a literatura sobre solidão e hipervigilância (HAWKLEY; CACIOPPO, 2010). Um avaliador razoavelmente pode perguntar o que o MASI acrescenta. A resposta proposta é quádrupla: (i) separar conceitualmente isolamento físico, privação relacional e perda de participação significativa; (ii) incorporar, em uma mesma estrutura, as camadas informacional e identitária de um período específico; (iii) introduzir a ansiedade de pertencimento como constructo mensurável; e (iv) formular predições falseáveis para uma população específica. Se a evidência empírica futura mostrar que esses acréscimos não explicam variância além de solidão e ansiedade prévia, o modelo deverá ser simplificado.

4 PROBLEMA DE PESQUISA E HIPÓTESES

Problema. Se a ameaça epidemiológica diminuiu, por que alguns indivíduos permanecem ansiosos? Objetivo geral: testar se a combinação de ameaça percebida, ruptura relacional, exposição informacional conflitante e ameaça ao pertencimento se associa à persistência da ansiedade em adultos brasileiros. As hipóteses, formuladas como associações e não como relações causais, são:

H1 (ameaça persistente). A persistência da ansiedade é maior entre pessoas que mantêm percepção elevada de ameaça, mesmo na ausência de ameaça epidemiológica objetiva.

H2 (ruptura relacional). Perda prolongada de vínculos e de participação social significativa associa-se a maior persistência da ansiedade, controlada a ansiedade prévia e a solidão.

H3 (informacional). Maior exposição a ambientes informacionais conflitantes ou desinformativos associa-se a maior percepção de incerteza e a maior ansiedade.

H4 (pertencimento). Maior polarização afetiva e maior ansiedade de pertencimento associam-se a maior ansiedade social e retração relacional, com a ansiedade de pertencimento como possível mediadora.

H5 (integradora). A combinação das dimensões associa-se mais fortemente à ansiedade persistente do que qualquer dimensão isolada, em efeito aditivo e interativo.

Critérios de refutação. Se a ansiedade de pertencimento não acrescentar variância explicada além de solidão, ansiedade prévia e polarização afetiva (H4), ou se o modelo integrado não superar modelos de dimensão única (H5), as hipóteses correspondentes não se sustentam. Questão exploratória: a composição e a magnitude das trajetórias (resiliente, crônica, recuperação, início tardio) variam conforme o perfil de exposição às quatro dimensões?

5 MÉTODO PROPOSTO

5.1 Delineamento

Propõe-se estudo observacional de painel longitudinal, com três ou quatro ondas em intervalos de aproximadamente seis meses, em amostra de adultos brasileiros com critérios de cotas (sexo, idade, região, escolaridade) ou amostragem probabilística, se viável. O tamanho amostral deve ser definido por simulação de Monte Carlo para os modelos de trajetória e de painel cruzado, considerando atrito esperado. O protocolo deve ser pré-registrado em repositório público (por exemplo, OSF).

5.2 Medidas

Quadro 3 – Constructos e instrumentos propostos

ConstructoInstrumento ou estratégiaObservação
AnsiedadeGAD-7 (SPITZER et al., 2006), com versão em português do Brasil (MORENO et al., 2016).Rastreamento de sintomas; não é diagnóstico.
SolidãoEscala de solidão de três itens (HUGHES et al., 2004).Conferir adaptação e evidências de validade no Brasil.
Participação social significativaEscala a desenvolver: frequência de atividades colaborativas presenciais e digitais.Requer análise fatorial exploratória e confirmatória.
Ansiedade de pertencimentoEscala a desenvolver e validar.Testar invariância entre grupos políticos.
Polarização afetivaTermômetros de simpatia por grupos políticos, como em Petherick et al. (2026).Evitar identificar o participante por candidato.
Exposição informacionalFrequência, fontes e percepção de conflito informacional.Distinguir uso ativo e passivo.
CovariáveisAnsiedade pré-pandêmica retrospectiva, condição socioeconômica, saúde, idade e sexo.Recordação retrospectiva é limitação.

Fonte: elaboração do autor.

5.3 Análise e ética

Prevê-se modelagem de crescimento latente com misturas (LGMM) para identificar trajetórias; modelos de painel cruzado com intercepto aleatório (RI-CLPM) para separar efeitos intraindividuais de diferenças entre pessoas; modelagem de equações estruturais para mediação (H4) e termos de interação para H5; tratamento de dados ausentes por máxima verossimilhança com informação completa ou imputação múltipla; e análises de sensibilidade. A pesquisa deverá ser submetida a Comitê de Ética em Pesquisa conforme as Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016, com Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

6 DISCUSSÃO

O MASI não pretende explicar toda a ansiedade pós-pandêmica, nem substituir explicações clínicas, econômicas ou biomédicas. Seu alcance é propor um conjunto articulado de mecanismos psicossociais que possam ser testados contra alternativas. Entre elas: ansiedade pré-existente e vulnerabilidades individuais; efeitos econômicos e de luto; sequelas da própria infecção; efeitos de plataformas e algoritmos independentes da pandemia; contexto eleitoral; e causalidade reversa, pois pessoas ansiosas podem buscar menos participação ou mais informação. O desenho longitudinal e a análise intraindividual visam justamente tratar essa última possibilidade.

Se o modelo for sustentado, as implicações seriam de três ordens: restauração de formas de participação social significativa (e não apenas de contato); promoção de alfabetização informacional; e intervenções de redução de polarização afetiva, como a correção de percepções equivocadas sobre outros grupos, que reduziu a polarização afetiva no estudo de Petherick et al. (2026). Se essas intervenções reduzem ansiedade, é questão empírica em aberto.

Limitações. O artigo é teórico, e a revisão é narrativa; boa parte da evidência citada é transversal ou refere-se a 2020–2021; os constructos de participação significativa e ansiedade de pertencimento ainda não têm instrumentos validados; a aplicação ao Brasil depende de dados nacionais sobre trajetórias de ansiedade pós-pandemia, que a presente revisão não esgotou; e a coincidência temporal entre pandemia, polarização e mudança tecnológica dificulta separar contribuições.

7 CONCLUSÃO

A pandemia pode ter terminado como evento epidemiológico, mas seus efeitos sobre os modos de relacionamento, comunicação, pertencimento e percepção de ameaça podem persistir como fenômenos psicossociais. O MASI propõe investigar a ansiedade persistente em uma ecologia de ameaça na qual o indivíduo enfrenta, simultaneamente, ameaças biológicas, relacionais, informacionais e identitárias, com menor acesso a formas presenciais de participação e regulação social. A contribuição pretendida é uma estrutura integradora e falseável, cuja utilidade dependerá de testes longitudinais que incluam a possibilidade de refutação.

Declarações

Conflito de interesses: O autor declara não haver conflitos de interesse.

Financiamento: Esta pesquisa não recebeu financiamento específico de agências de fomento públicas, comerciais ou sem fins lucrativos.

Contribuição de autoria: Autor único. Francisco Cesar de Sousa: concepção do modelo e das hipóteses, revisão da literatura, redação e revisão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados: Não se aplica. O manuscrito é um artigo teórico e não gerou dados empíricos primários.

Uso de inteligência artificial generativa: Na preparação deste manuscrito foi utilizado o assistente de inteligência artificial generativa Claude (Anthropic; modelo Claude Sonnet 5.5), em outubro de 2026, para leitura crítica do texto, conferência e complementação de dados bibliográficos por meio de busca na web (autoria, páginas e DOI de referências), preenchimento das declarações do manuscrito e formatação do documento. A concepção do modelo, os construtos, as hipóteses, a argumentação e as conclusões são de autoria do autor, que revisou e aprovou integralmente o texto final e assume responsabilidade integral por seu conteúdo. A ferramenta não consta como autora.

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